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terça-feira, outubro 22

Mil perdões


Aquele sorriso mais uma vez em minha frente vinha acompanhado dessa vez dos olhos pequenos, tristes, tímidos, sem vergonha. Era confuso fazer uma simples análise naquele momento, era como tentar vergonhosamente decifrar um total estranho, com a diferença de você ter compartilhado intimidades um dia.


Sentamos e a única coisa que eu consegui fazer foi te perguntar as trivialidades de vida, as mudanças e sorri de canto de boca. Você retribuiu, se soltou e me olhava hipnotizado. Já não sabia se seria melhor dificultar e te mostrar o quanto você perdeu ou me entregar como da primeira vez.


Aquela primeira vez em que você me olhava pequenininho, ainda se descobrindo, ainda me descobrindo com os olhos. A magia de me desnudar, o vagabundo charme capaz de me deixar envergonhado. Você não sabia nada e ao mesmo tempo fez tudo que deveria ter feito naquela noite deitados no chão. Mas agora estávamos em um bar, em plena quinta-feira e uma situação mais avessa do que imaginava.


De frente a você eu sabia que não ia resistir por muito tempo, sabia que aquele outro que me roubou de você nunca teve significado, nunca se quer soube te amar. Sempre quis saber se ele te dava prazer como eu, se ele te beijava com tanto desejo depois de duas ou três transas. Mas talvez você prefira assim, sem tantos laços pra não enforcar o presentinho colorido, bonito, mas machucado de tanto embrulho. Talvez você queira um lençol a cada noite, pra não lembrar quem deitou na noite passada. Talvez hoje, naquela mesa, você só queira os mil perdões que insistia em cada dose de uísque que tomou nesses longos meses desde o nosso fim.


Seu papo continuava o mesmo, sedutor e divertido, e sua risada gostosa era como se quisesse me fazer de palhaço. Eu não queria, mas meu coração já havia te perdoado, meu coração era tanto amor que já não sabia pensar. Perdi o freio, o bom senso e só ganhei uma dose de pavor. Era medo tudo que eu sentia, e foi exatamente isso que me fez te perder. Já não sabia ser tão firme a ponto de excitar seus pensamentos, capaz de trazer pra mim qualquer outro naquele bar em um instante e apenas com um olhar. Eu não queria te trair, eu queria que você levantasse da cadeira e lutasse por mim, jurasse que a gente era a gente e não só eu. Eu queria que você sentisse o ardor no peito por me perder, por se sentir trocado em moedas de pesos tão diferentes que não valia tentar compensar.


Três copos de vodca barata e você simplesmente me tinha de novo. E foram roupas, foram beijos, foram os toques mais profundos e atraentes. Você era quem eu tinha perdoado na ausência do eterno malfeitor e eu te tinha não mais em perdões, mas em sonhos traídos e jamais criados por mim. Você era quem eu demorei pra entender, mas que agora eu conseguia brincar, eu conseguia simplesmente viver naquela cama, naquelas noites, depois de um botequim. Era perdão, era desejo, você era a dose de uísque mal tomada que dessa vez não deixaria ressaca.

domingo, outubro 20

yo no se hablar te amo

(deve ser um erro de fábrica.)





Sempre tive o costume de começar a história pelo título, parece que assim eu moldo a nossa história com as minhas vontades. E dessa vez não foi diferente.

Te titulei, era algo mais ou menos "tudo o que eu precisava", sintetizei em você meus anseios/desejos/vontades/medos/sonhos...(infinidades)... Não me dei conta que eu não era uma Cinderela (ou outra princesa frágil), e por isso me tornei dependente-do-enredo.

Esqueci também de te avisar que eu estava escrevendo sozinho a nossa história, eu era o escritor e o protagonista, você um coadjuvantezinho, que vinha me satisfazer e depois ia embora para eu ter saudade e sofrer um pouco. O roteiro era legal. 

Mas você não quis assinar o contrato para atuação. Não entendi nada ia lhe faltar, eu te daria tudo.

Pensei até em mudar para você ter um maior destaque na história, mas você não me deu ouvidos... Simplesmente disse não, e, aliás, você nem sequer leu a história.

Logo imaginei que você não seria o ator ideal, não ia me render o Oscar, não ia ser um sucesso de bilheteria, e ia ser um fracasso. Como os outros, como sempre foi os outros, o erro é os outros, o erro é o erro..... Meu erro, eu sou o erro, o meu erro sempre foi o erro. Eu não sou um bom escritor.




Moral da história: 


O título é o ponto final, a cereja do bolo. A caneta deve ser compartilhada, e não pode ser caneta, deve ser Lápis, pois irá precisar apagar e por em ordem o rascunho. Ah, mas o protagonista sempre tem que ser você, mas não deve ter coadjuvante.

domingo, julho 21

Deleite

[deite com sua barba em meu peito e me faça arrepiar, pegue minha mão e silencie meu coração. Eu gosto desse escuro com você na cama, nossos corpos se completam perfeitamente e em um só encaixe tudo fica melhor. As vezes nem parece
que existe problemas, mas aqui eu esqueço, eu me enlouqueço, aqueço. Respire aos meus ouvidos. Morderei seu pescoço para me marcar em você. E você se deleite em mim, se dê.]



"Entre tantos outros, entre tantos anos. Que sorte a nossa, hein?
Entre tantas paixões, esse encontro. Nós dois. Esse amor."
Vanessa da Mata

O surto de amor



"Sim pro inexplicável.
Eu disse sim."

Sandy


Não, eu não pretendo achar a metade da laranja. Eu simplesmente espero que aconteça. Talvez eu peque no esperar, mas eu compenso no acontecer. Não quero quem me complete, nem que venha pela metade para formar um inteiro. Se for pra vim, que venha cheio. Cheio de vontades, cheio de querer, cheio de motivos.

Não, eu não preciso de mais poréns só para, enfim, completar uma frase. Uma frase mais necessária no texto de outros do que no meu. Eu só preciso continuar reticente, com algumas vírgulas e uma ortografia impecavelmente capaz de traçar as melhores e piores confusões sentimentais. E se faltou uma crase, me perdoe pelo deslize gramatical e me considere pela (in)coerência dos meus gestos sutis.
Não, eu não me tornei um doido varrido desses que te procura em qualquer esquina, em qualquer meia viagem ao trabalho ou naquele vagar solitário de pensamentos em pleno domingo à tarde. Se as noites são mais frias e menos preenchidas sem abraços, o calor vem das palavras amargas de qualquer muro virtual ou mesmo de uma página amarela e mofada de um presente antigo.
Sim, eu surtei de amor quando desejei reunir todos os pedaços de ternura soltos ao meu redor. Eu surtei de amor quando consegui entender que namorar é muito mais uma definição da alma do que das convenções. Surtei quando vi meu coração lembrar de você, mesmo quando o você não fosse meu, não fosse aquele amor de sessão da tarde, não viesse com alianças douradas e uma flor. 

Eu apenas surtei de amor quando o frio me abraçou hoje e não me deu espaço para outras metades, outros desejos, outros corpos inteiros. Apenas para recomeços em salas de espera de qualquer consultório sentimental por aí.

1

Para meia palavra tudo basta,
e besta foram os dois,
boçais que não entendem o fim.
Começar foi legal, agora quero ver no meio...
É que no fim, todo o resto se torna estória.
Ô dona Maria, não se afobe não,
o que é seu não há de chegar, ô se não...
O jeito é aprender a navegar com o que tem,
você,
se sentir incompleta pro outro
se completar em você,
junte as mãos e agradeça,
você tem tudo o que mereça,
Há de se completar,
e se não completar, recomeça.
Para bastar, meia palavra tem que começar.

[fácil falar]

domingo, junho 9

Véspera

Quando você vier haverá o encontro da sua busca com a minha espera.
E o seu abraço será a moldura do meu corpo.
E a minha boca o pretexto para o seu mais demorado beijo.
E a gente vai brincar de se desmaterializar dentro da música,
de desatar auroras, de escrever poemas de orvalho...
E eu vou inventar uma madrugada eterna pra quando você tiver que ir embora no dia seguinte.
E você vai inventar um domingo que vai durar pra sempre porque tenho preguiça das segundas-feiras.
E a gente vai rir dessa maldade da demora do tempo pra fazer essa brincadeira de desencontro:quase nos deixou descrentes...
A gente vai rir dessa maldade porque o nosso amor será a coisa mais bonitinha do mundo...

terça-feira, abril 9

Baú

Vasculhando nas memórias algum assunto, encontrei a carta que eu rabisquei na capa de um livro: “pra você”, era o destinatário. Não sei por que não mandei, talvez não quisesse passar a limpo o passado. Em letras garrafais eu te dizia: “acertei o caminho não porque segui as setas, mas porque desrespeitei todas as placas de aviso”
. E achei curioso eu usar essa metáfora sem nem ao certo saber o que queria te dizer com isto. E depois de repousadas aquelas palavras eu percebi quanta coisa eu escrevi pra você querendo dizer para mim. Porque eu jamais chegaria aonde cheguei se só andasse em linha reta. Tive que voltar atrás, andar em círculos, perder dias, perder o rumo, perder a paciência e me exaurir em tentativas aparentemente inúteis para encontrar um quase endereço, uma provável ponte: a entrada do encontro. Você tão ocupado com seus mapas, tão equipado com sua bússola, demorou tanto, fez sinais de fumaça e não veio. Você simplesmente não veio. Mas me ensinou a intuir caminhos certos, a confiar nos passos, a desconfiar dos atalhos. Porque eu estava do outro lado e só. Sem amparo. Mas caminhava. E você estava absolutamente equipado com seu peso. E impedido de andar pelos seus medos.