Arquivo do blog

domingo, fevereiro 17

Uma xícara de chá

Mãe, meu chá acabou!
- Não tem mais, filho.
- E de outro sabor? - implorava com olhos nostálgicos e sedentos.
- Você não iria querer misturar com as últimas gotinhas grudadas em sua xícara, iria?



O pano de mesa continuava florido, mesmo que, mais cedo, você tivesse derramado chá e, sem querer, o amargo da sua boca ainda refletisse na falta de açúcar do pote transparente. Aproveitamos a sua derradeira falta de atenção e resolvemos nunca mais marcar outro café daqueles. Nem chá, nem suco, nem água, nem um oi. Não combinávamos mais com torradas, geleias, toalha de mesa de morangos ou mesmo duas xícaras de louça japonesa com sachês usados no pires.


Rearranjaram as cadeiras e a que sempre foi sua puseram intencionalmente do outro lado da casa, escondida no sótão para que eu nunca fosse capaz de ir buscar. Meu medo de escuro só perderia para minha rejeição por poeira, exatamente como nós dois provavelmente acabaríamos: empoeirados e escondidos. Por medo, acreditei que a nova combinação de cadeiras da sala de estar ficaria incrível com o tempo. Por saudade, acreditei que era tudo uma questão de costume. Por amor, fugi da cama à noite e fui a passos curtos e miúdos naquele esconderijo onde te guardaram só para mais uma vez saber que você estava lá.


De manhã, as cadeiras, os chás e a toalha de morangos sorriam em tons de bom dia, sem saber que naquela noite eu quebrei o acordo de aceitar mudar a sala de estar por pelo menos alguns dias. Abri mais um sachê do último chá que dividimos e percebi que pouco importava se os outros sabores eram deliciosos. Hoje, era só o seu aroma que eu precisava pra sorrir mais uma vez. Mesmo que dessa vez eu só precisasse de uma xícara e a sua cadeira.



Texto do Patrick Moraes, para sempre, meu.

terça-feira, fevereiro 5

Retrogrado






Tentei correr. 

Não consegui,
Tudo embaralha. 
Dispara 
diz parar.
Então volto,
meu caminho é sempre o mesmo, 
sou previsível 
às vezes invisível 
mas sempre assíduo.
Tum Tum Tum
meu coração acelera.
Acelerar, volto a corre,
Ou correr e Ocorre. Ré.






Ouvindo O Teatro Mágico, ali.

quinta-feira, janeiro 24

Emprestadas

"Talvez ele nunca saiba que ela mudou os móveis de lugar, mandou queimar o colchão que já conhecia tanto o peso dos dois, e deu pro morador de rua o edredom que testemunhara tantos abraços noturnos. Dormiu no chão, quis mudar de religião, leu Lacan e criticou Freud pelo seu processo lento e generalizador. Pensou em mudar de curso, de profissão, de cidade. Quis mudar de si, já que seu corpo era a casa de um só sentimento. Fez uma viagem, não quis conhecer ninguém, posou de antipática porque estava apática. Se escondeu da lua cheia, fez do seu quarto um campo de concentração e depois se mudou para sala. Trancou todas as portas pra não entrar qualquer ilusão. Por tanto tempo era ela e sua tristeza intransitiva. O que ele também não sabe porque nem ela sabia, é que um dia ela acordaria assim, vazia daquele amor. A dor exaustiva de cabeceira havia cessado, deixada no fundo do poço. Parou de se alimentar daquela porção individual de desilusão e enterrou o passado num túmulo desconhecido, para que não houvesse a menor possibilidade de revisitá-lo.
(Ele quase soube disto quando pensou que ainda estava recente para ensaiar uma recaída,um flashback. Mas para ela, que só soube na hora do reencontro tão almejado, já era tarde.) Havia criado um mantra: No momento em que me dei inteira, ele me deu as costas. Isso não pode continuar supervalorizando uma saudade. (...) E o seu melhor vestido pedia uma nova chance e um rímel à prova d'água."

Pró Seco

(Eu sinto sei que sou um tanto bem maior.)

Logo tudo se resolve, o que tem pra cair cai e o que tem para aparecer aparece. É mágico. É triste. Mas foi esperado.
E me deito, na rede, e paro para fazer análise e planos para a próxima colheita. Eu gosto de ser estratégico. Odeio improviso. E então, me senti mal ao ver matagal onde espera uma grama verde, percebi que só perdi tempo e dedicação. Definitivamente há coisas que só merecem o chão seco, sem água e sol na medida. Mas isso não significa que esse matagal possui alimento e brilho próprio, na verdade ele não merece não merece e não merece tamanho trabalho.
E...
Cri a dor, Criai e atura.

terça-feira, janeiro 22

1,2,3 4.



Eu me entrego pros dias de sol, pra camisas de banda e até pra chocolates, ou filmes de romance esquecidos na estante. Pros perfumes que deixam boas lembranças, pras risadas que me tiram todo o ar, às cores vibrantes do seu tênis que caminham em minha direção. Caminho devagar, se o tempo for bom.
Não pense muito no fim, tudo se adapta. Se alguém te deixou cego, não questione, simplesmente vá. Se o errado pra mim for o certo, eu não me importo. Eu me entrego.
Eu me entrego à sua bagunça na minha sala, a um bom livro antes de dormir.
Ao hoje, ao agora e ao talvez…Ao compromisso de realizar meus sonhos.
Desapego até dos meus esconderijos, aos berros. Deixe a deixa aberta, aperte um sorriso num mundo colorido pra que viver apenas uma cor?



À música estrondosa, à casa vazia, chão gelado e silêncio interior. Às bocas vermelhas, às meias de lurex, às unhas compridas, tudo junto, só se for.

Eu me entrego apenas quando souber que o que iremos passar vai ter valido uma canção.
Meia hora a mais na cama na segunda-feira, um dia chuvoso bem embaixo do edredom.
Ao colo de quem me aceita assim, a tudo que puder antes que a cortina feche. Até de malas prontas, me arrisco a compor, de um jeito que ninguém sabe, sem sonhar com os pés no chão.

Entregue-se àquilo que te faz sentir.

domingo, dezembro 30

Canhotto


É que esta cada vez mais difícil colocar para fora tudo o que machuca e conforta aqui dentro, por isso me limito em 'oi e olá' parecendo um pouco seco e desinteressante, mas é o máximo que eu consigo dizer sem demonstrar tamanho sentimento calado no meu interior.
Assim tudo vai mudando e continuando tudo tão igual, parece que estou e não estou na sua vida... Você às vezes me parece tão estranho. Suas meias palavras, seus trejeitos de um ar de mistério, mistérios esse que tento desvendar, mas, desvendo da maneira errada. Eu vendo falsas convicções a seu respeito pra mim mesmo e não consigo comprar.

É que me engasga e me sufoca, eu não sei dizer e não respiro. Eu piro, e isso não é legal. Eu não sei a dose certa, sempre perco o freio. É que tudo o que é muito bem calculado e planejado nunca me encantou, sempre fui de loucos e insanos amores... E hoje pago a conta cara.

sábado, dezembro 1

Rascunhos


Eu amo as madrugadas. Mas é que elas me roubam de um jeito e me avassalam com uma introspecção tal, que é difícil saber para onde eu vou quando acordo. E um trecho, só um trecho de livro, faz com que eu me perca em-si-mesma por entre redemoinhos, labirintos, galáxias... para dentro. Coisa de gente maluca. E eu deixo tocar aquela canção, da faixa de sempre, do CD que eu mais ouvi nessa última semana... e é estranho. É tão estranho.

Não tem tristeza aqui. É pensamento. Gosto de ficar em casa sozinha, descalça, botando água nas plantas e sentindo meus pés pela tábua fria. Mas é que hoje eu matei um vaso de flor, porque não tive paciência pra ele. Eu podia ter botado mais água, colocado no sol, mas é que eu queria que ele florisse antes. Ele não floriu, eu joguei fora. No lixo. A imagem daquele vaso bonito... caído, largado, tristonho me mostrou tanta coisa...

Eu enxergo metáforas por todos os lados, mesmo nesse meu vaso de flor. É que eu não aprendi a ser paciente. E quando as coisas não são exatamente da forma que eu espero que elas sejam, eu sigo em frente. E as flores morrem, fenecem, murmuram lá trás.

Se isso é bom? Acho que não. Mas é que na minha vida eu aprendi que às vezes para alguma coisa florir é preciso mais que cuidado ou fé... é preciso semente