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domingo, janeiro 31

Dorme aqui hoje

Deita aqui do meu lado e não precisa dizer mais nada. Sem compromisso de ligar no dia seguinte ou deixar um bilhete de despedida no criado mudo. Só deixa eu ser teu porto nesses dias de maré alta. Me abraça forte e deixa que o perfume do teu corpo me faça acreditar que amanhã tudo vai ficar bem mesmo sem você.

Dorme aqui essa noite. A gente divide o café e as piadas bobas. Nem precisa falar sobre seu dia, muito menos sobre o seu passado. Mas se quiser, meu colo será seu melhor abrigo. Às vezes, desabafar alivia aquela angústia inesperada no fim do dia. Às vezes, combinar nossos silêncios é o suficiente para acalmar um peito inquieto. Só não levanta e bate a porta. A cama é grande demais e o seu abraço ainda é a melhor coberta nas noites frias.

Deixa eu fazer tuas vontades. É que teu riso afasta toda possibilidade de tristeza, e meu coração anda querendo se aninhar na felicidade. Prometo te deixar ir embora quando tudo parecer ficar sério demais, quando as coisas perderem a leveza, quando o casual ceder lugar para as imensas complicações que a gente insiste em provocar. Você sabe, a gente ainda teme começar de novo e acha melhor seguir em frente sem riscos de sofrer, mesmo que isso signifique arriscar o amor.

Espera. Não fica triste! Eu tenho preferido deixar tudo claro para que teu peito não desperte à toa. Meu coração odeia ser acordado em vão e, quando não se irrita, ele chora pelas perdas que a vida traz. Não sei se a gente aguentaria outra aventura em busca de um final feliz, mas minha intuição nunca foi boa quando se trata de amor. Melhor não esperar nada: nem do amanhã, nem do acaso.

Só fica um pouco mais. Mais um abraço, mais um cochilo, mais um sorriso daqueles que aperta os olhos. Eu sei que o nosso combinado era não pedir mais, mas é que, no teu peito, meu desassossego vira paz. Não se perde de mim e nem deixa eu me perder. Mesmo sem promessas, é o conforto da tua companhia que eu tenho desejado todas as noites. Não se apressa, nem se atrasa. Apenas fica.

(Patrick Moraes)

sexta-feira, janeiro 22

Namoramar.

Namoramar
para seguir de mãos dadas
e projetar no futuro o presente.
Namoramar
para se sentir acompanhada
mesmo quando o outro está ausente.
Namoramar
para encontrar no amor sua casa.
Namoramar
para ter em si o aconchego que é estar
tão na-morada.


(Namoramar para desenhar sentido na rotina e descobrir no
verso seu inverso ou sua rima).

sexta-feira, janeiro 15

Se (de)rr(ame)

(Minha nudez foi apresentada
Não os meus órgãos 
Mas a nudez interior
Eu nunca me senti tão exposto.)




Pra ler ouvindo, Tiê, ali.

Hoje não tem mais conversa, não tem mais birra, troca de conhecimento, não tem mais coração lilás.

Eu já gastei o coração azul, agora o lilás, me restam poucos e não quero repetí-los com outro enredo.

Logo eu que somente me importo com o simbólico, até porque, de nada adiantaria se não fosse o beijo na testa e os sussurros no ouvido. E foi naquela hora em que eu já sabia que não era mais meu, eu ali já tinha me entregado e mesmo no escuro eu sabia exatamente onde estava sua boca.

Eu me entreguei como sempre me entrego, sem freio e medida, eu sempre detestei a medida, mas como sempre, a planta também morre com muita água.

As palavras pensadas me assustam, a cautela e a escassez.

Ora, eu não estou aqui para estar na medida, eu estou aqui para o exagero, para o acúmulo, o excesso, eu  quero os excessos. 

Eu quero noites mal dormidas, olheiras no outro dia e sorriso. Quero irritações, dor de cabeça e paz interior. Quero desejos, gritos e silêncio. Quero a falta da sintonia, o descompasso com a nossa combinação. Eu gosto é do estrago.

Eu não quero a normalidade, eu quero a dor, a raiva e o erro. Quero pensamentos, músicas, textos e curtidas. 

Eu não quero a solução do problema, eu quero a procura, a ajuda e a persistência.

É que nada em mim é fechado, eu sou feito de amor da cabeça aos pés e não faço outra coisa do que me doar. Eu tenho desejos maiores e o muito pra mim é muito pouco. 

Eu não sou um quebra-cabeça ausente de peças e que depende das suas para completar, eu sou todas as peças completas e estou disposto a juntar com as suas peças e tentar formar um quadro no estilo dadaista, em que só a gente vai entender.

Eu sou o copo cheio e gostaria que você viesse para derramar o líquido quebrando o copo, eu detesto o pacifismo, eu queria o caos, a plenitude do caos.