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quinta-feira, janeiro 24

Emprestadas

"Talvez ele nunca saiba que ela mudou os móveis de lugar, mandou queimar o colchão que já conhecia tanto o peso dos dois, e deu pro morador de rua o edredom que testemunhara tantos abraços noturnos. Dormiu no chão, quis mudar de religião, leu Lacan e criticou Freud pelo seu processo lento e generalizador. Pensou em mudar de curso, de profissão, de cidade. Quis mudar de si, já que seu corpo era a casa de um só sentimento. Fez uma viagem, não quis conhecer ninguém, posou de antipática porque estava apática. Se escondeu da lua cheia, fez do seu quarto um campo de concentração e depois se mudou para sala. Trancou todas as portas pra não entrar qualquer ilusão. Por tanto tempo era ela e sua tristeza intransitiva. O que ele também não sabe porque nem ela sabia, é que um dia ela acordaria assim, vazia daquele amor. A dor exaustiva de cabeceira havia cessado, deixada no fundo do poço. Parou de se alimentar daquela porção individual de desilusão e enterrou o passado num túmulo desconhecido, para que não houvesse a menor possibilidade de revisitá-lo.
(Ele quase soube disto quando pensou que ainda estava recente para ensaiar uma recaída,um flashback. Mas para ela, que só soube na hora do reencontro tão almejado, já era tarde.) Havia criado um mantra: No momento em que me dei inteira, ele me deu as costas. Isso não pode continuar supervalorizando uma saudade. (...) E o seu melhor vestido pedia uma nova chance e um rímel à prova d'água."

Pró Seco

(Eu sinto sei que sou um tanto bem maior.)

Logo tudo se resolve, o que tem pra cair cai e o que tem para aparecer aparece. É mágico. É triste. Mas foi esperado.
E me deito, na rede, e paro para fazer análise e planos para a próxima colheita. Eu gosto de ser estratégico. Odeio improviso. E então, me senti mal ao ver matagal onde espera uma grama verde, percebi que só perdi tempo e dedicação. Definitivamente há coisas que só merecem o chão seco, sem água e sol na medida. Mas isso não significa que esse matagal possui alimento e brilho próprio, na verdade ele não merece não merece e não merece tamanho trabalho.
E...
Cri a dor, Criai e atura.

terça-feira, janeiro 22

1,2,3 4.



Eu me entrego pros dias de sol, pra camisas de banda e até pra chocolates, ou filmes de romance esquecidos na estante. Pros perfumes que deixam boas lembranças, pras risadas que me tiram todo o ar, às cores vibrantes do seu tênis que caminham em minha direção. Caminho devagar, se o tempo for bom.
Não pense muito no fim, tudo se adapta. Se alguém te deixou cego, não questione, simplesmente vá. Se o errado pra mim for o certo, eu não me importo. Eu me entrego.
Eu me entrego à sua bagunça na minha sala, a um bom livro antes de dormir.
Ao hoje, ao agora e ao talvez…Ao compromisso de realizar meus sonhos.
Desapego até dos meus esconderijos, aos berros. Deixe a deixa aberta, aperte um sorriso num mundo colorido pra que viver apenas uma cor?



À música estrondosa, à casa vazia, chão gelado e silêncio interior. Às bocas vermelhas, às meias de lurex, às unhas compridas, tudo junto, só se for.

Eu me entrego apenas quando souber que o que iremos passar vai ter valido uma canção.
Meia hora a mais na cama na segunda-feira, um dia chuvoso bem embaixo do edredom.
Ao colo de quem me aceita assim, a tudo que puder antes que a cortina feche. Até de malas prontas, me arrisco a compor, de um jeito que ninguém sabe, sem sonhar com os pés no chão.

Entregue-se àquilo que te faz sentir.